terça-feira, 30 de março de 2021

A Arte-educação como resposta aos impactos do COVID

 



A educação é uma das áreas mais afetadas pelos impactos do corona-vírus de imediato e, consequentemente em médio e longo prazo, principalmente a educação infantil, que é promovida de acordo com a idade da criança, visando que esta desfrute da sua infância de forma integral, enquanto aprende. Depois do grupo 5, a criança segue para o ensino fundamental, independente de avaliações curriculares, pois a Base Nacional Comum Curricular considera que as experiências vividas na educação infantil promovem o aprendizado necessário para esta transição, e considera primordialmente a diversidade na infância, ou seja, que as crianças aprendem em tempos e proporções diferentes, conforme suas particularidades. O aprendizado não se dá de forma compartimentalizada, onde cada componente curricular é ensinado separadamente, e sim de forma interdisciplinar. Na educação infantil as experiências proporcionam o aprendizado, uma criança pode, por exemplo, aprender matemática à medida que vai conhecendo a estrutura familiar, quando identifica as pessoas com quem mora, quantas são, quem são, seus nomes e graus de parentesco. E para viajarmos ainda mais neste rio de experiências, a criança pode criar uma rima, um verso, uma estrofe ou uma canção apresentando sua família. A arte nem pensa em ficar de fora da educação infantil e é sobre isso que eu quero tratar aqui com as famílias e educadoras, e não vou me limitar à educação infantil oficial, mas à educação na infância, que compreende também os anos iniciais do ensino fundamental.

Pensando ainda os desafios na educação, imagine as crianças egressas da educação infantil para o ensino fundamental, neste contexto pandêmico, sua experiência em era uma sala cheinha de outras crianças com carinhas, cabelos e cores outras para colorir seu fantástico mundo de aprendizagem. Depois ela entra em um tempo de isolamento, quando as creches e escolas estavam, como toda a sociedade, tentando entender o cenário para se adaptar a ele. E agora se veem no ensino fundamental, onde a educação é compartimentalizada, em salas virtuais, vendo a professora e suas colegas do outro lado da tela e um mundo de livros do lado de cá, em uma experiência completamente diferente da realidade anterior.

Enquanto famílias com crianças matriculadas na rede particular, optaram por tirar a criança da creche ou escola de educação infantil, durante a pandemia, famílias com crianças matriculadas na rede pública de Salvador mantiveram as matrículas para garantir, inclusive, as cestas de alimentação, uma vez que é na creche e escola que as crianças fazem suas principais refeições. Com a turminha em casa, matriculadas ou não, a família se depara com o desafio de maior participação na educação da criança. Os domicílios não contam com os recursos pedagógicos das instituições educacionais e nem com uma equipe pedagógica habilitada para desempenhar este papel. Neste cenário, os aparelhos digitais surgem como um caminho, às vezes como um alívio. No entanto, é preciso considerar outras questões fundamentais como a saúde da criança. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda através do documento Menos Telas Mais Saúde que, crianças entre 2 e 5 anos de idade não sejam expostas a telas de aparelhos digitais por mais de 1 hora por dia. Sabemos que a realidade é outra em muitos domicílios, então é preciso que haja uma força-tarefa entre professoras e famílias parentais ou afetivas, para pensar sobre este cenário de desafios vividos pela educação e indagar-se sobre possíveis ofertas, soluções e caminhos para avançarmos, diminuindo os danos causados por este caos mundial e preservando a educação, para que nossas crianças tenham um presente  e um futuro de aprendizagem garantidos.



O desafio de fazer acontecer a educação está derrubando simbolicamente os muros e cercas das escolas e creches e destruindo ruas e estradas entre essas instituições e as casas. Estamos juntas mais do que nunca. É preciso perceber onde essa afirmação faz sentido, usar a criatividade e fazer acontecer. É assim que a arte responde. Em outubro do ano passado, iniciei um projeto que nasceu sob demanda a convite da psicóloga Naiane Pechir, que desejava presentear seus sobrinhos com oficinas artísticas. Adorei o desafio e mergulhei fundo nesta missão que chamei Oficinas Criativas. Foram cinco encontros brincando, aprendendo e criando arte, história, família, mundo e muitas outras coisas. Nestes momentos de arte-educação a criança vai desvendando seu potencial criativo e suas habilidades, a educadora, atenta vai percebendo tudo e propondo caminhos para desenvolver as potencialidades da criança, propor desafios e atuar na realização que é protagonizada pelas participantes. As Oficinas Criativas aconteceram semanalmente, com uma hora de duração, para crianças entre 6 e 12 anos que, durante os encontros se revelam artistas natas. É o que toda criança é, na verdade, não é mesmo? Artista e arteira. O que semeará este solo fértil é o adulto, educador ou familiar, com estratégias criativas a partir dos recursos e cenário disponíveis para o sucesso do projeto pedagógico. Nas Oficinas Criativas a arte, elemento que inspira a minha vida, contribui fazendo uso da proposta dos Campos de Experiências da Educação Infantil (para maiores informações, consulte a BNCC ou o Referencial Curricular da sua cidade), priorizando a experiência como ambiente propício para a aprendizagem e utilizando-se das linguagens artísticas, em diálogo com as narrativas das crianças e suas afinidades ou desafios. Os processos partem de um plano com metodologia de projeto e diretrizes pedagógicas pautadas na arte educação inter, multi e transdisciplinar, alinhadas a lacunas estratégicas que serão preenchidas com as expertises criativas da turma, culminando em um projeto de Arte EAD que rompe barreiras e cria pontes, onde a criança é a protagonista da sua história.

A seguir, dois vídeos que produzi e dialogam com este conteúdo.

 https://www.youtube.com/watch?v=uWK5rnx72NQ

https://www.youtube.com/watch?v=h5vydomO8lI



quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Eu sinto




Sabe?  Eu sinto falta de nossos corpos na história escrita. Ainda hoje, eu sinto.

Eu sinto falta de nossas palavras ditas, firmadas no presente, de nossas lutas em existir através delas ao longo dos anos que não se foram e os que estão por vir.

Eu sinto falta da voz de uma velha senhora mãe, mulher de cor que pisa na terra, fuma charuto e lava roupa na beira do rio, sustenta a família mercando ou cantando, administra as contas, o alimento das crianças e ainda roda a saia.

Eu sinto falta do sol raiando o dia nem tão quente, outono ou primavera chegando, eu sinto um friozinho gostoso da tarde de sol. Sinto saudade daquela saia rodando na praça, o couro comendo e o corpo sambando no centro. As alegrias da gente não podem ser descritas por uma retórica acadêmica. Eu sinto falta da vida lá fora.

A vida aqui dentro não para de viver. Educação é movimento, escutei um dia lá na Universidade,  da cacica Nadia Akauã e desde então eu me entendo nessa história dançante de um modo que nem sei dizer. Eu sinto falta de não precisar dizer, sabe? Eu sinto.

Eu sinto falta dos fatos nunca noticiados, que a gente vive e sabe. A história que é e chega aqui, mesmo acontecendo em outro lugar. O vento me avoaça e sopra de longe uma saudade que sinto.  Eu tenho saudade de ser Tupinambá. Tenho saudade da África Bantu.

Estou voando num buraco grande e vazio entre o agora e o tempo inteiro de todo o lugar. Eu, partícula vizinha de outra partícula, e outra, e outra que movimentam este lugar. Eu tenho saudade da roda onde todo mundo está. Roda, roda e todo mundo está.

Onde estão Ginga e Conga, Janaína e Tarumin, se não em mim?

Aonde está o agora e quantos agora cabem aqui em quem eu sou?

Cabaça, útero, estupro, vísceras, semba, umbigo, movimento, parentas, sambaquis, tubarão, mangue, mãe, folhas, caruru, ladeira da misericórdia, vó miúda, minha terra, benim, capoeira, angola, popó, maculelê, bahia de dona dalva, zelita, aurinda, nenete, dona ana, matarandiba, saubara, santo amaro, são tomé, trem, sertão, recôncavo, papel rosa, escola, roda, atabaque, tremor, candomblé, toré, medicina, mulher...

Eu sinto falta de mim e isso não é um problema.

Estou aqui.

Eu sempre estive aqui.

 

Tempo-gira



 Agô! Malembe! Bandagira! Saravá!

Quanto sangue escorre entre a vida e a morte?

“Na minha aldeia gira sol e também a lua. Que tempo é esse, meu Deus?”

Ah, mulher...

Mulher corpo corpa cores corre escorre escorrega

Senta brinca no chão do terreiro

Pila pilão

Pisa pé firmado de leveza

Amassa o barro massapê

Escorre escorrega corre

Cai não cai

Canta Iaô  Kota Mametu Cacica

Canta praia canta folha canta tudo

Larga o doce que é seu

É mel

É meu

É minha história

E na minha natureza, essa história conto eu

Folha fresca

Folha seca

Bate folha

Pisa chão vento avoa

Reza ri

Benze banho tempo

Banzo água agora

Saudade. Quem sabe da minha sou eu

 

Quantos tempos cabem neste agora?

 

 

sexta-feira, 13 de abril de 2018

capoeira

eu firmei a mão
os dedos no chão
aú de cabeça no chão
as presas, meus dedos
são garras no chão

ele não haverá de saber
seu renê
a capoeira que me traz
vem de trás de mim
faz eu de mim

lagarta macaca cobra dendê
água que corre
beleza
muita natureza
meu nome é capoeira

sexta-feira, 30 de março de 2018

Aarakshan

fonte imagem: https://en.wikipedia.org/wiki/Aarakshan

Acordei de madrugada depois de cinco horas seguidas de sono. Despertei quando estava em Porto Alegre, na casa de minha vó Miúda lá de São Félix, com minha irmã abuelita Jorgelina, que é argentina e mora na Ilha de Itaparica. Os sonhos tem dessas. Desvendar que é o mistério.
Bebi água, tomei banho e fui buscar um filme. Sem paciência para arte panfletária, sem estrutura emocional para algumas questões específicas como racismo e colonização das américas, na intenção da arte política, encontrei Aarakshan.
Várias queixas*! 

De primeira, senti identificação com as personagens do cartaz. É Indiano. Massa! Na sinopse a presença de questões que me interessam: cotas e educação. É esse! (...) Menino... Duas horas e quarenta e três minutos de filme. É mesmo? Beleza, vamos lá. Já me pegou. Nada nada** eu pego no sono. Só o fato de não ser hollywoodiano já gera uma expectativa diferente. Várias relações, no entanto, com clássicas produções norte-americanas, e peculiaridades indianas de se encantar.

Longe da intenção de análise crítica de um filme, estou aqui enquanto estudante universitária de pós-graduação, graduada em universidade federal na cidade de Salvador, moradora do subúrbio que frequentou a melhor escola particular da região, até a sétima série, quando fui para um colégio particular no Centro da Cidade, para classe média baixa. O ensino era de qualidade. Uma possibilidade aos filhos dos esforçados e uma alternativa antes do ensino público pros playboy e pras paty que nada queriam com a hora do Brasil. Fiz a oitava série e o primeiro ano lá em Nazaré, onde o Pelourinho é logo ali.
Depois fui para o ensino público na cidade baixa, onde boa parte dos colégios públicos agora são colégios militares com vagas bem concorridas. O salário de meu pai enquanto maquinista da Leste não deu conta das quatro mensalidades, mesmo priorizando a saúde e a educação diante de certas regalias. Ingressei na UFBA na primeira turma do curso de Bacharelado interdisciplinar em Artes, em 2009, para mim uma revolução da educação superior brasileira. Fui conhecer as cotas já dentro da Universidade, mas nunca achei que eu fosse merecedora delas, ou melhor, sempre achei que não tinha direito, pensando no fato de que tive acessos que muitas outras pessoas não tiveram, o que me dá certos privilégios.

A questão racial é sempre muito forte para mim. De tanto boiar num mar de classificações e preconceitos acerca de minha identidade, resolvi seguir meu coração, e encontrar nele as respostas para minhas inquietações sobre ancestralidade. Meu coração revela quem sou e o que tenho que fazer, quem são as minhas, os meus e por onde devo seguir para que elas e eles possam se desenvolver junto comigo. Com cabelos cacheados, tez da cor do céu quando ainda não é noite, mas o sol já se pôs, e  com a própria história arrancada, só me resta acessar a memória. É por isso que para saber quem sou, eu danço.

O filme é baseado na política de reserva de vagas em empregos e universidades. O termo aarakshan quer dizer reserva em português, segundo dicionário virtual. Na Índia a separação se dá por castas e as cotas são por necessárias reparações semelhantes às nossas: as diferenças sociais, que aqui no Brasil se dá principalmente na dimensão racial, herança colonial escravista que marca nossa história.
O filme evidencia fraudes e farsas do capitalismo e o seu poder de manipular e controlar áreas estruturais de uma sociedade como a educação, ao mesmo tempo que põe a educação e a força dos mestres acima deste poder material, efêmero e oportunista. 
Tem um tanto de utopia e um muito de possibilidades. Uma trilha sonora envolvente demais, uma fotografia rica e dinâmica. Elementos culturais que nos aproximam do território sem nos distanciar das nossas questões. Um filme de causa irmã à nossa aqui no Brasil, necessário de ser visto por mestras, mestres, educador@s, educandos, mães, pais, filhos, parentes... 
Através da abordagem do acesso à educação superior, Aarakshan, propõe reflexões sobre amor, ética, o mágico presente na simplicidade e no clichê, a infinitude do invisível e como tudo brota e vive por meio da educação. Como ela revoluciona tudo e expõe o potencial criativo de todo ser. Toda flor desabrocha com educação, toda semente dá planta e toda árvore sombreia. E é isto que temem os detentores do poder: a educação revela que não são os únicos capazes, tão pouco melhores que ninguém, como desejam suas posições sociais e raciais nos convencer, discreta e descaradamente. Dá pra ver a angústia da ameaça em seus olhos.

Muitas cores na produção, lindas mulheres com vozes fortes, cumprindo papéis necessários em territórios dominados por homens e seus pactos oportunistas. Me senti representada, ainda que os protagonistas sejam dois heróis de batalhas, no final quem junta todas as pontas soltas e faz uma amarração circular e equilibrada é a sabedoria de uma mulher. É a mulher. 
Não vejo problemas em apoiar e ser orientada por um homem ou seguidora de suas ideias e filosofia, desde que sejam propostas que contemplem o coletivo. E isso é muito feminino. 

Caminhamos junt@s e assim somos muito mais fortes; estamos entrelaçad@s nas relações e lugares comuns. Precisamos nos dar conta do mal que todo tipo de segregação nos trouxe até hoje, reparar os erros e seguir alinhados em condições e possibilidades, para que os méritos sejam representados pelo potencial real de cada um, e não pelas oportunidades que teve às custas do fardo pesado de outrem.

Enfim... com o dia amanhecendo e o cabelo com uma passadeira de cocó***, resolvi esticar mais um pouco a jornada digital para compartilhar os pensamentos e sugerir, aconselhar, pedir, talvez até implorar que assistam, todas e todos. Precisamos dessa reflexão.

Sem cunho comercial, mas facilitador, tá na Netflix. 

Bom dia. Bom feriado. Boas reflexões.



*vários babados, várias histórias, muito assunto.
**se não der certo, se não acontecer como planejado.
*** penteado que divide e enrola o cabelo só na parte da frente

segunda-feira, 19 de março de 2018

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Naufrágio na Baía


Hoje um tanto de gente procurou por mim quando soube da tragédia na Baía que atravessei quase diariamente por dois anos, que ainda me permite atravessar vez ou outra, por seu espelho d'água, para beber águas que fortalecem. 
Não quis me manifestar até ter a certeza de que tod@ minha gente estava viva. Ch-orando agora por todas as vidas que escrevem essa história triste da nossa Baía. 
Mais dor, no entanto, sinto por ver a vida valendo tão pouco nas mãos do homem, este bicho destruidor que negocia destinos, pensando saber do mar mais que a dona das águas e a dona dos ventos.
É meu coração batendo forte, meu corpo tremendo... agora vou fazer samba de roda em Tubarão, lado de cá da Baía. Samba ritual que celebra a vida e a morte,círculo sagrado que cura e liberta.
Vai ter um minuto de silêncio e outros tantos de toque e canto, celebrando a ida, a vinda, as vidas que nós somos. Que fomos e que podemos ser.
É roda de amor, de lamento, de passagem. De doer e aliviar a dor.
O samba de roda é celebração da eternidade. Presente passado e futuro. Aiyê Orun. Todo lugar.
Respeitem as vidas e águas da Baía.

Agosto

Lá dentro bem dentro eu sinto de longe a dor partir. No centro, escuro e silencioso centro, a cura começa a alumiar. É lá que é de verdade.
A dor há e haverá para todo o sempre desta carne nada perene.
Falo da eternidade. Onde me vejo, onde tu pode me ver.

Lá centro bem centro eu sinto um vrrrrr que vai tomando o caminho das extremidades. Lá no ponto mais profundo das tripas tudo é longe, a escuridão é clara e o silêncio é um orgasmo múltiplo.
A dor há. É tanto que a carne fere.
O espírito no entanto é leve. Ele até mergulha mas é para aprender voar. E quanto mais profunda a luz, mais alta a escuridão. Assim se cresce.

Sê poesia nestes lugares de tanta dor. Que a alma possa degustar o presente deste corpo, porque a carne é um sopro.
Êta força de agosto.
Máximo respeito. No mais, só gratidão.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

lonjura

dos amores que quanto
conto em dois dedos os de cá
aprendi com isso a apreciar lonjura
frio de inverno que gela até a alma

eu até gosto do frio
aprendi com ele me aquecer
gosto de casulo também
e sou de chorar sem doer

mas quando luas e luas se passam
e uma fresta de sol penetra a névoa
vejo quem chegou novamente:
primavera

traz consigo a flor que encanta e o sol que aquece
aprendi com ela não ter pressa

...

dos amores que quanto
lonjura é pouco e tempo é nada

dos amores que quanto
quem dá conta é a eternidade





domingo, 16 de julho de 2017

esperança

ando catando o que há de humano nos outros, meus pares
desconhecidos e familiares

ando catando o despir da escória que humano criou

quando exerce a sua humanidade contraditória
humano desmerece a autoria de sua obra

(...)

ando catando o despedaço sorriso na trilha
onde as folhas mortas e seus tons colorem o chão

o homem é sua cria, terra
quando o pariu, era como tu: terra

depois foi destruindo seus pares, filhos da terra
a vida que como a sua, vida era
para criar cobiça de olhos grandes sobre a terra

(...)

Ando catando o humano 
e o ser humano 
que o humano
não mais
sabe ser

quarta-feira, 3 de maio de 2017

o feminismo em mim - minhas escolhas faço eu

O feminismo se revela em mim quando rompo relações com "homens modelo", daqueles que a família diz: um desse você não vai encontrar mais. 

Às custas de desafios imensos e do frio de outonos, porque não há preço a liberdade sagrada de cada dia das estações.


O feminismo se revela em mim quando reconheço que posso amar um homem, escolher viver com ele re-encontros astrais... e seguir junto, desde que ninguém precise desviar de sua rota, fardo que, na maioria das vezes, quem carrega é a mulher.

Sinto o feminismo pulsando em mim quando acredito e sei que posso, e escolho por onde ir.

Percebo o feminismo em minha vida, quando vou entendendo os processos sociais em mim, identificando e curando as feridas, e a partir daí, escolhendo tudo e cada coisa. Ainda que seja chorar... A escolha é minha - é consciente.

O feminismo me diz que chegou quando eu mesma faço as minhas escolhas.


#ofeminismoemmim

o feminismo em mim - quase estupro na infância

o feminismo se revela em mim quando sinto necessidade em compartilhar experiências como o quase estupro da infância, a tentativa do padrinho gente boa, torcedor do flamengo, que dormia no mesmo quarto da afilhada, durante a festa de são joão em cachoeira. naquela casa em são félix, onde entravam faíscas pelas janelas, das espadas trocadas entre o coreto e o paço municipal nas noites dos festejos, e bebia-se muito licor todas as tardes na varanda de onde podia-se apreciar um belo jardim, outrora bem cuidado por dona valdelice.
parecia sonho, eu fui me dando conta meio sonolenta. não lembro se a luz estava acesa ou apagada, mas sei que a porta estava meio aberta. talvez tivesse luz de outro vão, entrando pela fresta. não sei. sentia um homem se esfregando em cima de mim, acordei bem grogue.
eu tinha onze anos e quando cheguei do tradicional são joão feira do porto, em cachoeira, ele não estava ali ainda, mas já estava combinado que podíamos dormir naquele quarto, já que as irmãs mais velhas estavam com seus respectivos namorados nos outros quartos.
dormi com o mesmo short marrom de gurgurão e o colete de malha, lindo e colorido, presente de uma prima querida.

quando me dei conta de que aqui, neste mundo - sentia ter voltado do mundo dos sonhos para o corpo - tinha de fato alguém se esfregando em cima de mim - podia perceber que ele estava vestido - o primeiro pensamento racional que tive foi: onde está meu padrinho? tem um homem em cima de mim. me mexi, como quem vai acordar. ele desceu. Eu de olhos fechados e com medo daquele bandido - não tive consciência da tentativa de estupro no momento. imaginava que era um bandido que tinha entrado na casa enquanto dormíamos e que por algum motivo estava ali, se aproveitando de mim.
ele voltou para cima de mim por mais três ou quatro vezes, pois depois que eu me mexia, dando a entender que acordaria, ficava um tempo até virar a cabeça para cada canto do quarto, fingindo dormir, a procura do meu padrinho, que me salvaria daquele monstro.
depois de várias sarradas - e podemos rir disso agora, se a gente quiser - percebi que não encontraria meu padrinho para me salvar, pois era ele ali, violando a minha infância, o meu tempo e escolhas, violando meu corpo. 

e seu eu não me mexesse? se tivesse mais medo do que tive? se ficasse quieta? ele tiraria sua roupa, penetraria o corpo de uma menina de onze anos. decerto.

não lembro bem muito do que aconteceu... às vezes tenho uns flashes, mas sinto que fui "programada" para esquecer.
 quando percebi que era ele, me posicionei com mais firmeza e distanciei; afastei bastante... e acho que emiti algum som meio forte... ele percebeu, e desistiu.
acordei cedo e contei para minhas irmãs.

tenho convivido, por questões familiares, com esta figura que tentou me estuprar aos onze e pediu perdão aos meus quase trinta, quando eu lhe respondi: não vou te perdoar, porque não te julguei e nem condenei.
nestes tempos, todas as vezes que ele e a sua maldita cachaça se aproximam, sinto um desandar nas tripas...
eu suporto a sua presença por questões de ordem ancestral.
mas ao contrário do que pode se pensar, ele não acabou comigo. homem não tem tamanho e nem força para me destruir porque homem vem de mim.
em minha humilde consciência, o olho sem paciência, dou um punhado de palavras e vou respirando, estudando as minhas possibilidades de emergir, flutuar, borboletar... voar cada vez mais alto.

eu sinto o feminismo em mim quando ele toca em você.
#ofeminismoemmim

terça-feira, 12 de julho de 2016

minha religião



Estou meditando... contemplando as folhas, os cantos das aves e o vento fazendo a roseira dançar... Estou cultuando meus ancestrais. Seres da criação divina, como eu, que chegaram no planeta antes de mim.

Estou meditando... Lembrando da minha vó, cabocla filha de santo, benzedeira, beata da congregação Coração de Jesus, de São Félix, da Cachoeira... Guerreira que se dizia delegada da ladeira. Da Família “Minha Terra”... Charuteira do Danemman e da Suerdieck... Estou cultuando meus ancestrais... Seres da criação divina, como eu, que chegaram no planeta antes de mim. Não tenho da minha vó a corrente sanguínea direta. A corrente divina que nos uniu se representa pela existência e celebração do encontro nesta vida. 
Estou cultuando meus ancestrais.

A palavra Religião vem do termo Religare, religar. A gente pratica em “vida”, o voltar ao que somos, a quem somos de verdade. Somos criação divina.
Sentir o contexto onde eu vivo, de onde eu venho... Não ignorar o que foi minha vó, meu vô, o que são meus pais, os pais dos pais dos meus pais...
Sou educadora, como minha mãe exerceu por anos de sua vida em escola, no reforço escolar da varanda de sua casa e até hoje com seus netos. 
Estou cultuando meus ancestrais.

Muitas coisas mudam...

Eu tenho todo respeito a religião de Jesus Cristo, muito amor e gratidão a ele também... O reconheço e sinto como parte do Pai Criador e da Mãe Divina de Criação. Uma missão linda... Remissão e Redenção.

Minha vó cultuava Jesus Cristo e todas as forças da Criação Divina. Ela cultuava o mar, as folhas, respeitava o vento e os trovões, rezada ave maria e cantava cantiga de caboclo no terreiro de China, sob a proteção da velha cajazeira... Ajudava todo mundo e nunca desejou mal a senhor ninguém.

Contava heroica que um dia o ladrão invadiu sua casa e ela botou pra correr com o facão... A delegada da Ladeira... Adotou minha mãe, filha de preta com homem mestiço. 
Minha vó era herdeira genética Tupinambá. Meu pai é pescador, viaja de bicicleta, acredita em Deus, leu a bíblia e o evangelho segundo o espiritismo algumas vezes... É meu Mestre e de muita gente. 
Estou cultuando meus ancestrais.

Tenho todo respeito ao Cristo de Nazaré, mas na minha veia corre sangue de preto, de índio e tenho também a mancha do branco invasor. Luto diariamente buscando, reconhecendo o que tenho e o que sou. Para não me perder. Sou verdade ao religar com o que meu corpo, meus sentidos, minha alma vibra e reconhece.

Eu sou do tambor. Do maracá. Eu sou negra tupinambá que acredita na força de todas as criaturas divinas e reconhece suas vibrações. Não estou vinculada a qualquer doutrina e vivo a religião. A conheço e nela me reconheço.

Estou meditando... Sentindo a força do metal, a lança que corta os males que tentam me chegar... Sinto seu derretimento no fogo transcendendo a tecnologia de meus ancestrais. Quem foi que disse que a cultura africana e indígena estavam estáticas não conhece capoeira, candomblé, pajelança e toré. Não conhece o movimento das nossas mulheres guerreiras. Ancestrais que aqui nasceram, viveram e escreveram com seu sangue a história que hoje vivemos. 
Estou cultuando meus ancestrais.

Minha alma não consegue se religar a uma cor, um lugar, a um deus que nos foi imposto. O reconheço, como deus da cultura de um povo, não como meu deus. 
Para ser fiel a este deus, muitos dos meus morreram. Fomos e somos exterminados diariamente para ser como aqueles que nos escravizou e segue escravizando, impondo o seu deus. Deus é força e homens falham.

Sinto uma força tocando dentro de minha costela agora... Do lado esquerdo, na parte de trás.

Estou meditando... Sentindo as forças que vibram em mim. Lembro dos meus. Vivo meu quintal, o mar, os presentes que Deus me deu.
Olorum, Tupã, Jah, Oxalá, Iemanjá... Eu sou filha da força da terra que me criou. Da Terra que eu sou. De onde eu vim é excelência para onde eu vou. É necessário que eu saiba. Que eu pense. Que eu creia. 
Estou me religando ao Deus que vive em mim e a tudo aquilo que ele criou. Sem subestimar, sem discriminar.


Estou meditando... Compartilhando com a irmandade o que meu coração recebe do alto. Do centro. Do Sul. Das profundezas do universo em mim.

Saravá, Txai!

terça-feira, 19 de abril de 2016

amor

minha cabeça é uma pluma
quando é cachoeira meu coração.

tchau, querida!

Quando lá para as onze, eu resolvi ir para casa e deixar rolar a finalização que eu já sabia o resultado, estava meio lesada. O nó que ameaçava entrelaçar minhas vísceras, afrouxou enquanto nas superfícies eu ia ficando trêmula. Sentia-me anestesiada com tudo que acabara de presenciar em rede nacional; mais uma mostra de que nossas leis são servidoras de interesses pessoais.

Pessoalidades foram as expressões mais presentes nas falas daqueles homens e mulheres, se utilizando da audiência quase absoluta daquele evento televisado, para mandar recados clichês para suas mães, filhos, esposas...  Alimentando suas vaidades, enfiando guela abaixo da população, seus egos e entes no registro da história do país. E não houve o que fizesse aqueles deputados federais de classe primária, ou ensino fundamental I, se comportarem conforme seus papéis, diante do país inteiro. Cheguei a lembrar dos programas de calouros nas ruas, onde as pessoas ficam disputando um espaço na câmera atrás do candidato, tipo “olha, eu na tv!”.

Centenas de parlamentares votando com tanta convicção de seus discursos, que dava até emoção. A questão é que suas palavras se desencontravam, um discurso invalidava o outro. Todo mundo sustentava uma verdade. Fiquei pensando na população do outro lado da tela, cansada com o histórico processo de mentiras, uma educação frágil e opressora que se limita convenientemente a ensinar o “sim” e o “não”... Vulnerável em meio ao mar de mentiras daquela bancada por ela eleita.

O impeachment contra a presidenta Dilma Roussef é o golpe que frutifica da árvore da conspiração contra o PT, que governa o país há quatro mandatos, tendo reeleito presidente um nordestino pobre e em seguida uma mulher. Uma afronta para os tradicionais chefes de estado.

O sistema deu boas vindas e integrou seus recém-chegados ao mecanismo de falcatruas histórico-político brasileiro. Todos que ali estiveram, dançaram conforme a dança. E não há ingenuidade que me convença ter sido a contragosto.

O que meu corpo sentia era influenciado, no entanto pelo eco do pensamento parafraseado: Não houve crime de responsabilidade, o que justificaria o pleiteio do impeachment. Houve o termo sensação do momento, pedaladas fiscais, especialidade dos políticos partidários aqui na eterna colônia de exploração. A pois que escravizaram os africanos, exterminaram os indígenas e os bustos de bronze exibem o reconhecido valor de brancos sanguinários. E quando o genocídio do povo negro vem lembrar à favela com cheiro de sangue fresco, eles invertem os discursos, marginalizam nossa gente, põe provas falsas, nos incriminam, prendem e matam.

Qualquer que tente travar ou desacelerar a máquina do poder, não sobrevive a ela.
Bolsonaro, Cunha... Conheço tão pouco e estou tão perplexa que temo saber mais.

Em tempos de julgamento, os bonzinhos entregam seus pecados nas mãos do perdão e apontam com todos os dedos e acusações possíveis contra seu inimigo, como se moral para isso tivessem.

A corrupção fede apodrecida sob o sol, depois de se encharcar de terra quando a chuva cai. É uma lama que volta a secar novamente, e encharcar novamente. As leis da natureza não isentam nada ou ninguém.

(...)

Tubarão foi dormir silenciosa depois de chover na periferia. Senti a noite triste e a lua crescendo calada, impiedosa e decepcionada. Enquanto na Avenida Cardeal da Silva, moradores dos edifícios gritavam freneticamente “tchau, querida!”

Ainda cedo fui ofendida por um “amigo do facebook”. Me disse que eu deveria estudar para não fazer mais cagada, de acordo com minha publicação acerca do processo de impeachment. Antes de excluir seus comentários e romper nossa relação virtual, fui me recordar quem era o cidadão. Santista, irmão da minha amiga. Filho de classe média, lá pelos trinta, que até outro dia, e talvez ainda hoje, mora com a mãe. Papai investiu em seus estudos, enquanto ele se descobria em festas, drogas e sexo, até o dia que escolhesse a profissão do pai ou talvez algo inusitado que o permitisse viajar pelo mundo, deixando as grandes dificuldades de sua vida para trás, como o sol forte das dez queimando seu rosto e o acordando tão cedo depois de uma noite de farra, o aumento da gasolina, talvez o trânsito caótico das cidades. Não sei bem. Mas não deve ser muito longe disso.

A noite chegou quando mulheres, homens, senhores, meninos de bigode ralo na cara, herdeiros de cargos políticos, representativamente brancos ou embranquecidos, estavam lá, dizendo “sim” a um processo inconstitucional, que rompe com a ética jurídica do país, afirmando redundantemente com todas as verdades sobre quem estavam representando: suas esposas, filhos, seus pais, sua família. A Deus eles invocavam para proteger e abençoar o país. Isso é tão contraditório porque eles demonstram segurança na emissão do “sim”, mas expressam transparente dúvida quanto ao futuro do país. Quem acredita que está naquelas mãos, melhor começar a trabalhar, porque decerto não estamos sob os mesmos cuidados de seus parentes e amigos. E quando os militares de 64 são homenageados é que eu peço “parem o mundo que eu quero descer”. É princípio capitalista, para uns ganharem muito, outros muitos tem que ganhar muito pouco. Para uns sustentarem certos luxos, muitos precisam morrer. Uma bancada de assassinos, me convenci.

O playboy de Santos estava bem representado ali. Os moradores da Cardeal também. Me senti como poucos indignados por trás do microfone, esmagada pela traição nacional, sem me ver representada enquanto suburbana, negra, pobre, mãe solteira, educadora, universitária, fazedora da cultura popular. De onde vem a maioria da população brasileira, não se herdam privilégios sociais, se conquistam. E a conquista maior de cada dia é sobreviver. Nossos caminhos são áridos, temos sede e por vezes fome.

Nos últimos anos, vimos um apoio por parte do estado às nossas antigas demandas, um olhar diferente para nossas lutas, um olhar mais de perto para os nossos direitos, possibilidades ainda que subvertidas de transformar nossas realidades e ascender no país que construímos.
Mas no meio deste mar, de peixes grandes e perigosos, é preciso cuidado. Peixe pequeno é piaba, que quando cresce um tantinho, o cardume assassino da bancada, sorrindo, como quem não quer nada. Nada... Nada...


Tchau, querida!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

ceia e ciclo


transcendendo às datas, olhos tão abertos 
veem para além das alegorias 
das mesas, das fantasias, das maquiagens... 
o ano está indo. em nossa cultura, o círculo e a intersecção



venho agradecer às forças divinas, forças da natureza 
representadas com maestria pela mitologia que rege 
a minha cultura mãe


meditar os ciclos e ser água, terra, vento... 
protegida pela espada de um deus que intercede


mulheres regem a lama fértil da vida, 
o sopro brinca de ser brisa
e as águas formosas riem.


agradeço silenciosa em felicidade
é sabedoria, não subir e nem descer


desaguar 
no horizonte voar
escorrer...


gratidão, áfrica mãe de minha história
abertos braços abraçam o presente por vir.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

devaneios da sobriedade de uma mulher

eu queria escrever um tanto de coisas que passa e se passam aqui desde a derradeira vez que abracei a caneta e deslizei-a sobre o papel, registrando o que possível, diante de tudo que sente o ser eu.
estive poeta, alegre, triste e melancólica. por vezes, tantas delas, agradecida por viver, vir e ver a vida como quem observa os passos dos seus próprios pés. pés firmados em uma história que se conta pelas marcas que carrega o meu corpo, pelo brilho que traz meu sorriso e verdades filmadas e projetadas por meu olhar.
vivo em dias de altas tecnologias e escassas técnicas de transmitir os ensinos que são de fato necessários para a evolução dos seres, o aprendizado das crianças e compreensão da maturidade humana, enquanto seres da natureza divina, parte de uma família materializada e responsável pela expressão do criador e da fertilizadora, gestora da vida.
a vida...
que me ensina todos os dias no erro que de nada errado está, já que me guia o coração. a disciplina me faz observar sem julgamento e perceber as respostas de cada ato, cada fato.
faço do meu espaço um constante movimento aquoso. nele vou navegando, tantas vezes sem rumo certo ou sabido, mas coração me leva, e cada erro acerta-me a consciência que instrui sem penalizar.
esta vontade de escrever deve ser  o fim do ciclo anual que se aproxima. tenho sentido o que vivi e vivendo tudo o que senti, que não faz mais parte da lembrança tanto assim, mas a carne trêmula anuncia que está tudo aqui. eu sou a eternidade.
aprendi a voar. sim, eu sei voar. e até levei comigo almas irmãs para descobrir a libertação espiritual através do vôo que se consagra no que chamamos de sonho, e é a pura verdade da vida astral.
este ano o astral me invadiu o plano dos homens e, mulher, naveguei por ele, descobrindo seus mistérios em um nível amplo da existência. sou ser universal.
este lugar onde meu corpo habita é região, um bairro de mim, logradouro da minha história. tenho vizinhos que estavam me esperando chegar. chegamos juntos aos lugares que remontamos no fazer dessa vida humana.
humana, vou aprendendo a trabalhar, que é viver no amor. o amor é a vida que vive sem medo, sem trama, sem trave e sem trevas.
não há nada de ruim. isso o que fizemos foi bom. não há por que se arrepender. nosso encontro é um pêndulo da eternidade que instruiu o encontro deste olhar. quando nos beijamos, mais foi revelado. sentimos. no abraço declaramos do corpo sutil: é um reencontro.
a eternidade de mim mulher, nasce nas entranhas de terra da áfrica, sobre as raízes da mata brasil. pindorama.
o que me disse o mapa astral, atenção a esta água que você é. é preciso direção. neste dilema peço o suporte do coração. ele segura na mão da razão para um dois mil e dezesseis mais racional, objetivo.
se com o coração já chego onde sou só gratidão, talvez a razão dê um equilíbrio à luz que trago.
sou só incertezas e fé, por isso sou a própria certeza de tudo o que vivo e sou. acredito nos meus guias, na minha mãe iluminadora, e no meu pai, mestre ensinador.
agora estou sem planos, mesmo que hajam muitas tarefas a cumprir. e não importa o que parece ser. descortino sem medo o presente de cada dia, vazio ou totalmente atribulado. vou vivendo aqui num lugar onde o coração do mundo pode sentir o amor. isso eu tenho ciência das mais sutis: o amor. por ele vivo e sirvo. ele me toma e eu bebo as águas nascentes que brotam e transbordam o caminho do riacho, da cachoeira, em um gole só. sou passagem. sou exército. sou a dança sagrada que nasce com o som do planeta. ele canta e eu danço, desde que sou partícula, e ainda sou, uma menina grão de poeira cósmica, a cachoeira, irmã da terra, das águas do mar. o vento. maré de março o ano inteiro.
mulher abundante de amor.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

rapé

tipi é o carcará que sopra o ar de ser livre
ter asas e sobrevoar o ser-tão

quando os espíritos do rapé me sopram o corpo, esvazio de tudo e respiro o ar de todas as coisas
leve, voo

lá do alto vejo o chão aquecer os pés 
e o vento me soprando as asas
é liberdade. você a conhece?

mais logo meus cabelos não serão tão leves ao vento...
estão alçando o voo de ser natural e livre
ser livre também é resistir. você sabia?

...

a paz que traz o sopro da floresta fala de um rapaz
paz é o seu nome e o que ele traz
faz voar alto 
eu voo para ele e volto aos ares de mim

expandi
rapé 
tipi

...

ao todo se entregar é voar
ser o todo e ter paz
ser paz

...

vejo minhas mãos descansando sobre a velha mesa 
quem é essa mulher velha? 
quem deu licença para ela se encontrar e se perder?
ser livre e paz?

ser mineral vegetal e animal
ser todo ancestral e florescer as pétalas da história que assobia

ser pássaro carcará 
ser-tão alma e coração
voar o vento de ser livre

tipi
rapé
tudo
eu
 
imagem: https://omundodegaya.wordpress.com

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

oxum

eu sou o bálsamo do puro amor
nasci vivo e sirvo
para com e por
amor

minha semente brota no alto
despenca jorrando a força
que conta de mim

com uma pancada 
eu me entrego à pedra
nossos filhos nascem mesmo ali

malemolente escorrego
ela não me toca outra vez
e nunca deixou de me tocar

desço dançando rio abaixo
no canto nossos corpos se perdem
até que me perca num braço de mar

no meio do caminho
um homem me bebe
nada se cria e nada se perde

segue...

eu sou doce
sou o amor doce
a doçura do amor

eu broto escorrego caio e vou
meu corpo canta
aqui tudo dança

secos jamais serão
os lábios que me toquem

leve forte em parte e todo
em toda parte eu sou amor



imagem: https://povodearuanda.wordpress.com/tag/oxum/

terça-feira, 18 de agosto de 2015

da oliveira




ele chega devagar e silencioso
como se batucando uma caixa de feijão

de repente, da terra que o torneia, brotam botões 
desabrocham por sua tez quase coberta 
os cabelos crespos cantam uma canção...

para o menino da tez da alegria

que mais, além de luz, o menino irradia?